Posted by: Vasco | January 12, 2010

Nota triste.

Eric Rohmer (1920 – 2010)

Realizador, crítico e ensaísta, autor de A Minha Noite em Casa de Maud, A Marquesa d’O e A Inglesa e o Duque, Eric Rohmer é um dos nomes fulcrais da geração da Nova Vaga francesa — de seu nome verdadeiro Jean-Marie Maurice Schérer, faleceu hoje, dia 11 de Janeiro, contava 89 anos.

Nascido em Tulle, a 21 de Março de 1920, Eric Rohmer representa o factor “literário” da Nova Vaga francesa. Num sentido muito profissional: professor de letras e autor de um romance (Elizabeth, publicado em 1946 sob o pseudónimo Gilbert Cordier), o seu envolvimento com o cinema dá-se, antes do mais, por razões jornalísticas, enquanto elemento de La Gazette du Cinéma — é aí que conhece Jean-Luc Godard, François Truffaut, Jacques Rivette e Claude Chabrol (publicando em 1957, com Chabrol, o livro Hitchcock). Com a cumplicidade essencial de André Bazin (1918-1958), o grupo seria a força criativa dos Cahiers du Cinéma, aliás com Rohmer a assumir as funções de chefe de redacção (1957-1963).

1959 foi a fronteira decisiva de afirmação da Nova Vaga, com os filmes Os 400 Golpes (Truffaut), O Acossado (Godard) e Hiroshima Meu Amor (Alain Resnais). Embora menos lembrado, é também nesse ano que Rohmer assina a sua primeira longa-metragem, Le Signe du Lion. Desde essa história insólita de um homem que se comporta como receptor antecipado de uma herança (que, afinal, não vai chegar), o seu cinema afirma duas vertentes essenciais: a metódica decomposição de todas as ambivalências da moral e o valor determinante, ao mesmo tempo dramático e existencial, da palavra. A sua primeira série, ‘Seis Contos Morais’ — a que pertencem A Coleccionadora (1966), A Minha Noite em Casa de Maud (1969) e O Joelho de Claire (1970) — é a expressão modelar de tais vertentes, com histórias (do próprio Rohmer) escritas a partir de um mesmo dispositivo: um homem conhece uma mulher e, quando parece fixar-se nela, vive uma aventura/deriva com outra.

Com uma nova série de seis títulos, ‘Comédias e Provérbios’ (iniciada em 1981, com o fabuloso A Mulher do Aviador), Rohmer integrava o valor simbólico da fala (o provérbio) para construir elaboradíssimas crónicas do quotidiano que são outros tantos retratos de uma França em acelerada transformação de usos e costumes. Os ‘Contos das 4 Estações’ (1990-98) prolongam tal estratégia narrativa, integrando uma componente “romântica” — o ciclo das estações — que, naturalmente, não pode ser dissociada das raízes literárias do universo de Rohmer.

A sua filmografia encerra com três títulos magníficos: A Inglesa e o Duque (2001), espantoso exercício de cinema histórico alicerçado numa visão politicamente muito pouco correcta da Revolução Francesa; Agente Triplo (2004), uma história de espiões em vésperas da Segunda Guerra Mundial filmada como uma estonteante guerra de palavras e aparências; enfim, Os Amores de Astrea e de Celadon (2007), adaptando de forma deliciosamente lírica um clássico da literatura francesa do séc. XVII.

Cineasta da palavra e de todas as suas ambiguidades, Eric Rohmer nunca foi indiferente aos poderes visuais do cinema. No nº 3 dos Cahiers du Cinéma (Junho 1951), publicou um artigo intitulado ‘Vaidade da pintura’, abrindo com esta citação de Pascal: “Quanta vaidade, a da pintura, que atrai a nossa admiração pela semelhança com as coisas de que não nos é possível admirar os originais.”
Por assim dizer, transpondo essa vaidade para o mundo do cinema, Rohmer propunha uma série de fascinantes (e actualíssimas) reflexões sobre a imagem cinematográfica e os seus paradoxos. Eis um extracto [tradução de José Manuel Costa, catálogo Eric Rohmer — Cinemateca Portuguesa, 1983]:

>>> Devolvamos então à câmara o que só a ela pertence. Não é contudo suficiente dizer que o cinema é a arte do movimento. Ele é, sim, o único que faz da mobilidade um fim e não a busca de um equilíbrio perdido. Contemplemos dois bailarinos: o nosso olhar só se sente satisfeito quando o jogo de forças se anula. Toda a arte da dança não é mais do que composição de figuras e o próprio movimento é nela simples questão de inércia. Pense-se porém em Harold Lloyd a gesticular do alto dos seus andaimes ou no gangster que espera por uma falta de atenção do polícia para se apossar da arma que o ameaça. Estabilidade, movimento perpétuo, eis outras tantas violentações sobre a natureza. A mais realista das artes ignora-as com toda a inocência.

Texto de João Lopes

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